quarta-feira, 8 de junho de 2011

Esse jeito Jean Charles de ser

Outro dia eu estava no trabalho comendo um sanduíche na escada que dá acesso aos lockers dos funcionários e percebi que tinha uma brasileira falando muito alto (como sói de ser) no celular,  também na escada, mas uns dois andares acima de mim. Mesmo sem querer, comecei a prestar atenção na conversa e pelo sotaque e papo entendi que ela deveria ser do nordeste, deveria ter por volta de 40 anos e que trabalhava na loja como faxineira ou algo que o valha.

Como aqui em Londres só tem imigrante, todas as operadores de celular fazem promoções para ligações internacionais a preços bem ridículos, tipo 2 centavos o minuto e a vida do povo é falar com os colega tudo que ficaram. Pelo que entendi, a moça - vamos chamá-la de Maria – falava com uma amiga que estava no Brasil.

Maria desfiava um rosário sobre as dificuldades que vem passando em terras inglesas. Dizia que se soubesse como seria sua vida aqui teria dito para Jesus (não o Todo Poderoso, mas seu marido) que voltassem no mesmo avião que desembarcaram. O problema, segundo ela, era que Jesus não queria nada com a hora do Brasil e quando o bicho pegava em casa nenhum de seus filhos a apoiavam. E para piorar, Raniel (ou algo que o valha), seu filho mais velho, anunciou que vai sair de casa assim que completar 18 anos. “Porque aqui, comadre, é assim, os filhos saem de casa com 18 anos. Mas eu disse para ele, que ele só sai se arrumar uma mulher para casar”. O medo de Maria é que o moleque saia de casa e vire, sei lá, entregador de pizza, e ela não acha justo, uma vez que a razão dela ter vindo de mala e cuia para Londres era justamente dar uma educação boa para os filhos, para eles serem alguma coisa na vida.

Mas Jesus parece que não se dá bem com o moleque e, sem saco de trabalhar e sustentar ninguém, achou muito bom que ele saia logo de casa. Maria tava muito puta com marido e preocupada que a filha mais nova, de uns 13 anos, que não está muito boa no inglês. ( Claro, numa cidade onde 60% das crianças falam outras línguas como língua principal, não é de espantar). E Maria continua: “Você não sabe o que passei desde que cheguei aqui. Jesus nunca quis trabalhar, já eu venho para o serviço até com febre. Todas as roupas que tínhamos quando chegamos eram doadas e eu que tive que me virar para comprarmos uma TV e um DVD. Rezo toda noite para Jesus (aí sim, o filho do Homem) me ajudar a juntar dinheiro para voltar e comprar uma casa no Brasil”. Enquanto isso, ela revelou, Jesus (o marido) vai fazendo uns bicos aqui e ali.

Nessa altura eu já tinha terminado meu sanduíche há tempos e estava mega entretida naquela conversa e, confesso, meio deprimida. Neguinho é foda, né? Não quero partir para o clichê “homem é foda”, mas essa história me lembrou minha avó. A bichinha casou com meu avô contra toda a família, que dizia que ele era um vagabundo. Ela, coitada, caiu no conto e achou que ele seria um homem melhor quando fossem morar no Brasil.

Resultado, saiu de Portugal brigada com a família, deserdada pelo pai e foi ser pobre no Rio de Janeiro, uma vez que é claro que meu avô não mudou nada. E se o homem não curtia um trabalho em Portugal, o que dirá no Rio, com toda aquela abundância. Durante mais de 50 anos (sim, quase 60 anos disso) a velhinha reclamou do dia que casou com meu avô e foi parar no Brasil. A mágoa era tanta, que nem o fato de eu e minha mãe existirem por conta disso acalmava a velha. Morreu aos 100, reclamando ainda.

Para você ver, e ainda tem gente que reclama de mim...

Um comentário:

Unknown disse...

Olá! cai no blog procurando por brasileiros que moram fora e adorei o seu jeitinho gostoso de escrever.
Eu morei um tempo na Irlanda, mas agora estou de volta e começando um novo blog. Dá uma passadinha lá, quero me manter lendo as suas aventuras!
beijos